O Custo Psicológico de Tentar Dar Conta de Tudo: Por que Fazemos Isso e Como a TCC Ajuda a Quebrar o Ciclo
- psicovivianebilins
- 23 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A sensação de ter que “dar conta de tudo” — agradar, produzir, corresponder, não decepcionar — tem se tornado um fenômeno clínico cada vez mais frequente nos consultórios. Não se trata apenas de cansaço: estamos falando de um padrão psicológico sofisticado, sustentado por crenças profundas, esquemas formados na infância e comportamentos aprendidos que se repetem ao longo da vida.
Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e da Teoria dos Esquemas, esse padrão é mantido por pensamentos automáticos rígidos, por esquemas internos de exigência e por estratégias de enfrentamento que funcionam… até deixarem de funcionar.
Neste artigo, exploramos por que tentamos dar conta de tudo, quais são os custos psicológicos e físicos, e como é possível reconstruir uma forma mais saudável de existir no mundo.
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1. Por que tentamos “dar conta de tudo”? A raiz na TCC e nos Esquemas
1.1. A lente cognitiva que distorce a realidade
A TCC explica que nossas interpretações moldam nossas emoções e comportamentos. Pessoas que tentam dar conta de tudo costumam operar com pensamentos automáticos como:
• “Se eu desaponto alguém, vou ser rejeitado.”
• “Eu deveria conseguir fazer mais.”
• “Descansar é perda de tempo.”
• “Eu preciso ser útil para valer algo.”
Esses pensamentos são crenças centrais — estruturas profundas que influenciam a autoavaliação e a percepção de responsabilidade.
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1.2. Os esquemas de Young que mantêm o padrão
Jeffrey Young descreve esquemas emocionais duradouros que moldam como interpretamos o mundo. Entre os mais comuns em quem tenta dar conta de tudo:
• Autoexigência/Inflexibilidade → necessidade constante de realizar, jamais sendo suficiente.
• Submissão → priorização dos outros, negligência das próprias necessidades.
• Busca de Aprovação → esforço contínuo para evitar rejeição.
• Padrões Inatingíveis → perfeccionismo crônico e autocrítica severa.
Esses esquemas surgem em contextos familiares onde amor e reconhecimento estavam condicionados a desempenho ou obediência.
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2. A psicologia social e o medo de desapontar
A ciência mostra que rejeição ativa os mesmos circuitos da dor física (Eisenberger & Lieberman, 2004). Não agradar alguém, portanto, não é apenas desconfortável — é doloroso neurologicamente.
Além disso:
• A cultura da performance (Byung-Chul Han) reforça que valor é igual a produtividade.
• Redes sociais criam comparação constante.
• Ambientes exigentes estimulam autocobrança patológica.
A soma disso gera pessoas que acreditam sinceramente que, se não estiverem fazendo algo, estão ficando para trás.
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3. O impacto psicológico e físico de tentar dar conta de tudo
3.1. No corpo
O excesso de demandas mantém o corpo em hiperativação simpática:
• cortisol elevado
• tensão muscular
• alterações do sono
• dores inespecíficas
• fadiga crônica
3.2. Na mente
Sob estresse prolongado:
• atenção reduzida
• dificuldade de foco
• pensamentos acelerados
• ruminação
• sensação de estagnação
3.3. Na identidade
Viver em modo desempenho cria uma identidade baseada em:
• funcionar, e não existir
• agradar, e não se perceber
• cumprir, e não sentir
A pessoa perde a capacidade de reconhecer necessidades próprias — e isso tem alto custo emocional.
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4. Como a TCC ajuda a quebrar o ciclo
4.1. Reestruturar pensamentos rígidos
A TCC trabalha para identificar e substituir pensamentos automáticos como:
• “Eu tenho que dar conta”
por
• “Eu posso priorizar sem perder meu valor.”
4.2. Desafiar crenças nucleares
Com técnicas cognitivas e experimentos comportamentais, o paciente aprende que:
• dizer “não” não destrói relações
• descansar melhora desempenho
• pedir ajuda não é sinônimo de incapacidade
• valor não depende de desempenho
4.3. Construir limites saudáveis
Intervenções de TCC ajudam a desenvolver:
• assertividade
• priorização
• autoobservação consciente
• tolerância ao desconforto de frustrar alguém
4.4. Reescrever esquemas
Integrando com Terapia do Esquema, trabalha-se:
• cura de necessidades emocionais não atendidas
• flexibilização de padrões rígidos
• fortalecimento do “modo adulto saudável”
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Conclusão
O desejo de dar conta de tudo não é fraqueza.
É uma forma aprendida de sobreviver.
Mas com consciência, TCC, revisão de crenças e reconstrução de limites, é possível sair do piloto automático e criar uma vida que não seja baseada em exaustão — mas em autenticidade, descanso, presença e autocuidado.
Se você percebe que vive nesse ciclo, buscar ajuda profissional é um passo de coragem e não de falha.
Referencias
CIALDINI, Robert B. Influência: a psicologia da persuasão. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2001.
EISENBERGER, Naomi I.; LIEBERMAN, Matthew D. Why rejection hurts: a common neural alarm system for physical and social pain. Trends in Cognitive Sciences, v. 8, n. 7, p. 294–300, 2004.
ARNSTEN, Amy F. T. Stress signalling pathways that impair prefrontal cortex structure and function. Nature Reviews Neuroscience, v. 10, n. 6, p. 410–422, 2009.
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais avançadas. Porto Alegre: Artmed, 2008.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Stress in America: Psychological Association Report. Washington, DC: APA, 2020.






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